A psicoterapia hoje – Uma abertura à (re)criação

A psicoterapia é, em primeira instância, um método/processo de tratamento face a condições adversas, dificuldades e problemas de ordem mental, emocional e psicossocial. Frequentemente, as pessoas procuram ajuda impulsionas por sintomas preocupantes e/ou situações de crise (como por exemplo depressão, ansiedade, perda de autoestima ou conflitos interpessoais). Assim, a psicoterapia visa a compreensão aprofundada das dificuldades, do sofrimento e do contexto onde emergem, bem como a sua resolução (ou a sua aceitação face ao que não podemos mudar, de modo a lidar com essas condições com menor sofrimento).

Esta resolução passa pelo desenvolvimento de respostas mais adaptativas face às vicissitudes da vida que desencadearam a crise (como afirma Einstein, não podemos resolver os problemas com as mesmas soluções que os originaram); presume, ainda, o desenvolvimento de um leque mais adaptativo de respostas a futuras situações de vida, tirando partido das dificuldades atuais para promover a aprendizagem e o desenvolvimento, úteis a outras eventualidades, em ordem a evitar a dependência da ajuda profissional.

Sendo a vida multidimensional, multifacetada, imprevisível e diversificada, esta resolução implica o desenvolvimento de uma maior flexibilidade e adaptabilidade, da capacidade de encontrar soluções diversificadas, bem como um sistema de defesas variado e articulado. Isto pressupõe o emergir na abertura à descoberta, ao novo, ao (re)inventar-se, à experiência, ao desafio e à criatividade constantemente renovada e renovadora da trama da vida, para que não seja uma mera vida tramada. Embora a psicoterapia surja como resposta aos problemas e à psicopatologia, o seu propósito é mais amplo e abrangente uma vez que se prende intimamente com a saúde menta.

 A saúde mental não é meramente a ausência de doença/sintomatologia; diz respeito à totalidade do ser humano, a todas as dimensões da sua vida, incluindo a autorrealização, a capacidade para produzir inserido na sociedade; implica, em última instância, uma existência com sentido pessoal, o bem-estar consigo próprio e em relação com os outros. Pode-se observar esta demanda por satisfação e uma vida com sentido na sociedade atual que proporciona uma ampla gama de escolhas e oportunidades dedicadas ao bem-estar como o desporto, o yoga ou os spas. A este respeito, salientam-se também, todas as oportunidades de viagens, proporcionando as mais variadas experiências culturais e de lazer em qualquer parte do globo. Hoje podemos usufruir de todas essas possibilidades de acordo com as nossas escolhas e preferências, uma vez que vivemos numa sociedade que valoriza e encoraja o desenvolvimento e o progresso, sendo o enriquecimento pessoal nas múltiplas dimensões da existência um epíteto do Homem cosmopolita contemporâneo.

Neste contexto, destaca-se a psicoterapia enquanto processo de desenvolvimento pessoal, não apenas como método de tratamento face a situações de crise. Podemos usufruir de todas as vantagens da evolução, dos mais sofisticados recursos, podemos viajar, fazer desporto, ter uma alimentação saudável mas, se não conseguimos compreender e transformar o nosso mundo interno/emocional, não temos qualidade de vida e podemos mesmo adoecer. Podemos ter uma casa de sonho e vivermos infelizes nela. A psicoterapia visa, assim, a (re)construção na nossa casa interior que se quer com alicerces sólidos e janelas amplas. Trata-se de uma reconstrução do eu e do eu com os outros uma vez que o ser humano é um ser social e relacional.

Face ao amplo propósito da psicoterapia, esta implica um aprofundamento do autoconhecimento; só ele possibilita a resolução esclarecida dos sintomas e problemas bem como a promoção do desenvolvimento. Esta consciência ampla e profunda de si mesmo e da sua história, em que padrões e processos inconscientes se tornam conscientes para que possam ser transformados e tornar-se mais moldáveis só pode ocorrer numa relação de confiança, na qual a existência pode ser pensada a dois. A psicoterapia é, assim, um encontro entre dois especialistas – o paciente especialista de si próprio, da sua própria vida e o terapeuta, especialista dos processos mentais, mas também dotado da sua personalidade, da sensibilidade humana que possibilita o vínculo e a segurança necessária à exploração dos meandros mais difíceis e desafiadores do inconsciente. Importa, assim, além do imprescindível conhecimento técnico e científico, a sensibilidade e o estilo pessoal, a relação que se (co)constrói – a terapia é uma união da ciência e da arte.

 Em modo de síntese poética, pensamos a psicoterapia como um espaço de encontro, onde, em segurança, se desenvolve e constrói uma relação compreensiva e transformadora, em que é possível (con)fiar uma viagem pelo mundo interno, pela história pessoal, (re)descobrindo e integrando as diversas partes de si… Viajar a tais profundezas é também cultivar a capacidade de sonhar e brincar, reinventando o Eu, descobrindo o potencial criador e criativo que repousa em nós, e que, nutrido continuamente na nova relação, nela sonhado e compreendido, se replanta e amplia. Neste encontro, vincado pela aceitação e compreensão incondicional, surge a possibilidade de uma expressão e partilha mais autênticas da totalidade do ser, tornando-se mais livre para se (re)conhecer e relacionar genuinamente, mais livre para se encontrar e, no encontro consigo mesmo, encontrar o outro também.

Daniel Figueiredo

Psicólogo clínico, Psicoterapeuta, Membro da SPPC

Porque desejamos o inacessível?

Muitas vezes ficamos fascinados com os mais diversos objetos de desejo, quer sejam roupas, destinos de férias ou outros bens de consumo. Muito frequentemente, ficamos cativos de uma inexplicável fascinação do inacessíveis – o carro que não podemos ter, aquela casa de sonho que nos colocaria noutro nível, aquela pessoa que admiramos nas redes sociais mas no fundo não queremos conhecer. Por vezes, a relação proibida com uma pessoa comprometida parece tão mais interessante do que tudo o resto, a promessa de salvação – o fruto proibido é o mais apetecido. Há, ainda, aquele curso que nunca vamos tirar, ficando a sonhar com uma revolucionária mudança de carreira…

Estes sucessivos adiamentos permitem-nos ir alimentando fantasias de completude imaginária, de como então tudo ficará perfeito e completo, numa expetativa de plenitude, livre de frustração. Segundo Laca o objeto a, objeto da fantasia, resulta do rasto de uma satisfação primordial imaginária, à qual o sujeito tenta sempre retornar.  Satisfação nunca acontecida pois a falta é constitucional, não existe satisfação plena. Assim como não existe representação ou compreensão plena – todo o símbolo é parcial, toda a representação de si trai a si mesmo, por mais completa que seja é sempre uma aproximação, algo lhe escapa e escorrega. Esta falta tende a ser recusada e encoberta por uma fantasia de completude que só se sustem a uma certa distância do objeto da sua realização, pois uma vez realizado o desejo reafirma-se a falta e a necessidade de lidar com ela. Muitas vezes o sujeito boicota o que mais deseja para não o perder. Vamos assim mantendo os nossos projetos fantásticos num horizonte de possibilidade adiada, só não podemos realizá-los para não perder a fantasia, para «não encontrar o desencontro».

Este estado fantasioso de completude é artificial e vazio, desprovido de realização, de encontro autentifico consigo e com o outro, de confronto a vida que pressupõe o risco de viver. Ficamos adormecidos, a fantasia torna-se uma espécie de droga legal das massas da sociedade em que tudo está disponível e em aberto – parece que não podemos comprometer-nos nem criar vínculos, para não perder nada. Contudo acabamos por perder por medo de perder – é pelas nossas escolhas e compromissos que criamos vínculos, que imprimimos a marca da nossa existência, da nossa identidade. Escolher é poder perder coisa para ganhar outras, outras que signifiquem algo. Se quando escolho uma coisa entre 10 a única certeza que tenho é que perdi 9 vou estar sempre em busca do escorregadio, do que escapa, do que desvanece, só valorizo enquanto não tenho. Quando posso perder e deixar ir, aceitando a falta e a incompletude, posso responsabilizar-me pela minha escolha pessoal, construir ligações com o outro tal como ele é, um outro autentico e não um outro fantasioso. Um encontro onde me encontro com um lugar para mim enquanto pessoa e não enquanto uma ideia cintilante, com um brilho para agradar a todos (e a ninguém em concreto). Um lugar que marca e dá sentido/significado.

Daniel Figueiredo, Psicólogo, Psicoterapeuta, membro da SPPC

Doença prolongada – a morte em vida?

Na sociedade atual assiste-se a um aumento da esperança média de vida, possibilitada pelo progresso técnico-científico e pela evolução dos cuidados de saúde. Isto proporciona uma vida mais longa, com mais saúde e possibilidades de autorrealização, menos sujeita aos infortúnios da vida. Por outro lado, também assistimos a um aumento exponencial de condições de doença/morte prolongada associados a finais de vida extremamente dolorosos para o idoso e a família. Muitas vezes a vida é prolongada sem que se proporcionem condições dignas, sem que a pessoa sinta que ainda tem um sentido/propósito e que o sofrimento é tolerável – sofrimento e dor que persistem a pesar da medicação. Somos cada vez mais confrontados com condições limite de um sofrimento extremo e prolongado. Por exemplo, nas pessoas que já não andam, dependentes para tudo, com dores permanentes – os ossos ficam gastos, o corpo mirra, os músculos desaparecem até já não terem força para segurar a cabeça ou abrir os olhos, a pessoa vai ficando acamada; é um processo lento e doloroso, a morte em vida – morrer não é para meninos!

Para os cuidadores é muito difícil, é muito doloroso ver nesse estado os nossos pais, pessoas centrais da nossa existência, do nosso mundo interno, sangue do nosso sangue. Na sua perda vemos a perda deles e a nossa que se faz presente e dolorosamente consciente. O enfermo sente a nossa tristeza e nós a dele, uma ressonância afetiva que grita nos confins somatopsíquicos.

Para o doente a dor ocorre a todos os níveis, físico e mental, é o fim que se aproxima a cada respiração – morte, fonte de intensa ansiedade e simultaneamente, alivio/libertação, terror e dor dificilmente concebíveis. É, contudo, possível que um sentimento de paz conviva com a agonia, a paz não é a ausência de sofrimento, resulta da sua aceitação. Estes estados limite implicam uma incomensurável capacidade de aceitação do sofrimento e do fim, um desprendimento e um desapego em relação a tudo, até da própria identidade. Só existe o momento, não existem mais conceitos e preconceitos de classes sociais, de sucesso ou insucesso, só o mais fundo e puro do Ser no aqui e agora despido. Para um doente terminal que recebe a visita de um filho que não via há anos, nada significam as antigas desavenças, a riqueza ou a pobreza, as rugas que entretanto lhes vincaram o rosto, o tempo que resta (o tempo já não importa para quem não tem tempo). Tão pouco importa a roupa que trás vestida, as antigas desilusões pois já não há ilusões, só a Presença. Muitas vezes nem há palavras, só o Ser, a paz da dor partilhada – dor da despedida, dor de quem parte e por ir indo, vai vindo, se faz mais presente internamente e nos transforma; de quem, ao morrer, dá novamente à luz. 

O acompanhamento profissional pode ser fundamental no apoio prestado e no desenvolvimento de competências e capacidades requeridas para lidar com os desafios destas situações limite, nas quais também podemos aprender e encontrar um propósito.

Daniel Figueiredo, Psicólogo, Psicoterapeuta, membro da SPPC

A importância do brincar no desenvolvimento

Na sociedade atual, vive-se uma cultura do sucesso – tende-se a enfatizar cada vez mais o êxito desde muito cedo. Muitas vezes, inclusive, há um desejo e uma pressão para que as crianças se manifestem como “precoces”, evidenciando elevadas realizações e “saltem etapas”. Neste contexto o brincar tende a ser algo subvalorizado como uma distração, uma pequena insignificância ou até uma perda de tempo. Contudo a atividade lúdica é fundamental ao desenvolvimento e desempenha uma multiplicidade de funções essenciais. Por exemplo, através do brincar e do jogo simbólico a criança expressa e integras as suas emoções e conflitos, sendo uma atividade fundamental ao desenvolvimento emocional e à saúde mental. É também a través do brincar que a criança desenvolve a imaginação, a criatividade e organiza os eventos no tempo. Brincando e fantasiando constroem-se cenários diversos, desenvolve-se a capacidade de antecipar e planear e por conseguinte, o pensamento e o raciocínio.

O brincar continua aliás a ser importante pela vida fora – atividades lúdicas como dançar ou entregar-se a uma atividade criativa por puro gosto são exemplos de coisas necessárias a uma vida saudável e com sentido. Brincar é algo muito sério! Tão sério como a vida.

Uma criança que não brinca é um adulto que não pensa, reproduz esquemas e guiões mentais previamente definidos, mas não cria novos pensamentos. Só há pensamento, criação e vida onde há sonho, diversão e jogo. Como dizia Einstein – “A criatividade é a inteligência a divertir-se. Brinque pela sua saúde!

Daniel Figueiredo, Psicólogo, Psicoterapeuta, membro da SPPC

Auto boicote psicológico

A autossabotagem, isto é a tendência a fazer fracassar os nossos desejos e projetos é um processo relativamente comum na vida do ser humano. Ele não é premeditado nem consciente, antes fosse, seria muito mais fácil de reverter. Resulta de processos inconscientes complexos que importa compreender de forma aprofundada para que se possam ultrapassar. Os exemplos são muitos e diversificados – as pessoas que mais aspiram ao sucesso muitas vezes são as que mais se boicotam, as que mais temem a rejeição são as que mais a provocam…

Salientamos, como mero exemplo, algumas personalidades que aspiram a elevados níveis de perfeição, com uma grande tendência para a idealização e recusa em aceitar a falha. Envolvem-se obstinadamente num projeto de melhoria do Eu, dos outros e do mundo, de busca de uma transformação extraordinária. Contudo, tendem a retirar-se quando estão a conseguir provocar as almejadas transformações, pois nenhuma melhoria real pode equiparar-se à supremacia do ideal totalitário – por mais extraordinária que seja uma conquista, uma vez consumada, passa a ser ordinária. Afastam-se para não se confrontarem com a impossibilidade dos imaginários a que aspiram. Encenam, assim, um padrão repetitivo de investimento e retirada, em que o mais dececionante pode ser o sucesso – desiludem-se para não se desiludirem.

Estes processos, por muito pouco sentido que possam fazer quando vistos de fora, podem ocorrer com qualquer um de nós, ninguém é indiferente à nossa realidade inconsciente. E também ninguém é indiferente ao potencial transformador da autoconsciência. Não se boicote, cuide de si!    

Daniel Figueiredo, psicólogo, psicoterapeuta, membro da SPPC

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