Auto boicote psicológico

A autossabotagem, isto é a tendência a fazer fracassar os nossos desejos e projetos é um processo relativamente comum na vida do ser humano. Ele não é premeditado nem consciente, antes fosse, seria muito mais fácil de reverter. Resulta de processos inconscientes complexos que importa compreender de forma aprofundada para que se possam ultrapassar. Os exemplos são muitos e diversificados – as pessoas que mais aspiram ao sucesso muitas vezes são as que mais se boicotam, as que mais temem a rejeição são as que mais a provocam…

Salientamos, como mero exemplo, algumas personalidades que aspiram a elevados níveis de perfeição, com uma grande tendência para a idealização e recusa em aceitar a falha. Envolvem-se obstinadamente num projeto de melhoria do Eu, dos outros e do mundo, de busca de uma transformação extraordinária. Contudo, tendem a retirar-se quando estão a conseguir provocar as almejadas transformações, pois nenhuma melhoria real pode equiparar-se à supremacia do ideal totalitário – por mais extraordinária que seja uma conquista, uma vez consumada, passa a ser ordinária. Afastam-se para não se confrontarem com a impossibilidade dos imaginários a que aspiram. Encenam, assim, um padrão repetitivo de investimento e retirada, em que o mais dececionante pode ser o sucesso – desiludem-se para não se desiludirem.

Estes processos, por muito pouco sentido que possam fazer quando vistos de fora, podem ocorrer com qualquer um de nós, ninguém é indiferente à nossa realidade inconsciente. E também ninguém é indiferente ao potencial transformador da autoconsciência. Não se boicote, cuide de si!    

Daniel Figueiredo, psicólogo, psicoterapeuta, membro da SPPC

daniel_figueiredo@live.com.pt || https://danielfigueiredoconsultorio.com/

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