Na sociedade atual assiste-se a um aumento da esperança média de vida, possibilitada pelo progresso técnico-científico e pela evolução dos cuidados de saúde. Isto proporciona uma vida mais longa, com mais saúde e possibilidades de autorrealização, menos sujeita aos infortúnios da vida. Por outro lado, também assistimos a um aumento exponencial de condições de doença/morte prolongada associados a finais de vida extremamente dolorosos para o idoso e a família. Muitas vezes a vida é prolongada sem que se proporcionem condições dignas, sem que a pessoa sinta que ainda tem um sentido/propósito e que o sofrimento é tolerável – sofrimento e dor que persistem a pesar da medicação. Somos cada vez mais confrontados com condições limite de um sofrimento extremo e prolongado. Por exemplo, nas pessoas que já não andam, dependentes para tudo, com dores permanentes – os ossos ficam gastos, o corpo mirra, os músculos desaparecem até já não terem força para segurar a cabeça ou abrir os olhos, a pessoa vai ficando acamada; é um processo lento e doloroso, a morte em vida – morrer não é para meninos!
Para os cuidadores é muito difícil, é muito doloroso ver nesse estado os nossos pais, pessoas centrais da nossa existência, do nosso mundo interno, sangue do nosso sangue. Na sua perda vemos a perda deles e a nossa que se faz presente e dolorosamente consciente. O enfermo sente a nossa tristeza e nós a dele, uma ressonância afetiva que grita nos confins somatopsíquicos.
Para o doente a dor ocorre a todos os níveis, físico e mental, é o fim que se aproxima a cada respiração – morte, fonte de intensa ansiedade e simultaneamente, alivio/libertação, terror e dor dificilmente concebíveis. É, contudo, possível que um sentimento de paz conviva com a agonia, a paz não é a ausência de sofrimento, resulta da sua aceitação. Estes estados limite implicam uma incomensurável capacidade de aceitação do sofrimento e do fim, um desprendimento e um desapego em relação a tudo, até da própria identidade. Só existe o momento, não existem mais conceitos e preconceitos de classes sociais, de sucesso ou insucesso, só o mais fundo e puro do Ser no aqui e agora despido. Para um doente terminal que recebe a visita de um filho que não via há anos, nada significam as antigas desavenças, a riqueza ou a pobreza, as rugas que entretanto lhes vincaram o rosto, o tempo que resta (o tempo já não importa para quem não tem tempo). Tão pouco importa a roupa que trás vestida, as antigas desilusões pois já não há ilusões, só a Presença. Muitas vezes nem há palavras, só o Ser, a paz da dor partilhada – dor da despedida, dor de quem parte e por ir indo, vai vindo, se faz mais presente internamente e nos transforma; de quem, ao morrer, dá novamente à luz.
O acompanhamento profissional pode ser fundamental no apoio prestado e no desenvolvimento de competências e capacidades requeridas para lidar com os desafios destas situações limite, nas quais também podemos aprender e encontrar um propósito.
Daniel Figueiredo, Psicólogo, Psicoterapeuta, membro da SPPC
