Porque desejamos o inacessível?

Muitas vezes ficamos fascinados com os mais diversos objetos de desejo, quer sejam roupas, destinos de férias ou outros bens de consumo. Muito frequentemente, ficamos cativos de uma inexplicável fascinação do inacessíveis – o carro que não podemos ter, aquela casa de sonho que nos colocaria noutro nível, aquela pessoa que admiramos nas redes sociais mas no fundo não queremos conhecer. Por vezes, a relação proibida com uma pessoa comprometida parece tão mais interessante do que tudo o resto, a promessa de salvação – o fruto proibido é o mais apetecido. Há, ainda, aquele curso que nunca vamos tirar, ficando a sonhar com uma revolucionária mudança de carreira…

Estes sucessivos adiamentos permitem-nos ir alimentando fantasias de completude imaginária, de como então tudo ficará perfeito e completo, numa expetativa de plenitude, livre de frustração. Segundo Laca o objeto a, objeto da fantasia, resulta do rasto de uma satisfação primordial imaginária, à qual o sujeito tenta sempre retornar.  Satisfação nunca acontecida pois a falta é constitucional, não existe satisfação plena. Assim como não existe representação ou compreensão plena – todo o símbolo é parcial, toda a representação de si trai a si mesmo, por mais completa que seja é sempre uma aproximação, algo lhe escapa e escorrega. Esta falta tende a ser recusada e encoberta por uma fantasia de completude que só se sustem a uma certa distância do objeto da sua realização, pois uma vez realizado o desejo reafirma-se a falta e a necessidade de lidar com ela. Muitas vezes o sujeito boicota o que mais deseja para não o perder. Vamos assim mantendo os nossos projetos fantásticos num horizonte de possibilidade adiada, só não podemos realizá-los para não perder a fantasia, para «não encontrar o desencontro».

Este estado fantasioso de completude é artificial e vazio, desprovido de realização, de encontro autentifico consigo e com o outro, de confronto a vida que pressupõe o risco de viver. Ficamos adormecidos, a fantasia torna-se uma espécie de droga legal das massas da sociedade em que tudo está disponível e em aberto – parece que não podemos comprometer-nos nem criar vínculos, para não perder nada. Contudo acabamos por perder por medo de perder – é pelas nossas escolhas e compromissos que criamos vínculos, que imprimimos a marca da nossa existência, da nossa identidade. Escolher é poder perder coisa para ganhar outras, outras que signifiquem algo. Se quando escolho uma coisa entre 10 a única certeza que tenho é que perdi 9 vou estar sempre em busca do escorregadio, do que escapa, do que desvanece, só valorizo enquanto não tenho. Quando posso perder e deixar ir, aceitando a falta e a incompletude, posso responsabilizar-me pela minha escolha pessoal, construir ligações com o outro tal como ele é, um outro autentico e não um outro fantasioso. Um encontro onde me encontro com um lugar para mim enquanto pessoa e não enquanto uma ideia cintilante, com um brilho para agradar a todos (e a ninguém em concreto). Um lugar que marca e dá sentido/significado.

Daniel Figueiredo, Psicólogo, Psicoterapeuta, membro da SPPC

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